A mulher independente

Atualizado: 17 de Jun de 2020

Mulher independente, tão independente quanto uma mulher o pode ser. E como qualquer independência, não depende de nada.

Não é homem, mas sim mulher do leme. O tal barqueiro.

Esta senhora de caráter verdadeiramente autêntico, de natureza autenticamente verdadeira e mais natural que a própria autenticidade, encontra-se a caminhar.

Acompanhe-a, sinta os seus passos ribombantes no chão que pisa, desafiadores, ouça como aleijam, veja como impõem o silêncio.

Austera, sim, e move-se durante a parte mais austera do dia: a madrugada.

Tem sítio onde ir, disso não duvide. Se há coisa que esta mulher tem, é um objetivo. Qualquer questão ou agente de abrandamento é ofensivo.

Mas, não existe barqueiro que não se congestione por correntes e ventos inoportunos. E, no fundo, qualquer independência tem uma dependência.

Para para fumar, afinal, sinal de independência! E então, no que ficamos?

Adiante, ultrapassada a necessidade desnecessária, atravessa a estrada em direção ao seu destino: Instituto Francisca Louçã, líder de mercado.

Chegada a sua líder, todo o edifício a recebe, claro. O rés-do-chão é o primeiro a ser agradado pela sua presença, as suas secretárias vieram ao seu encontro assim como o elevador.

O seu, é o último piso, porque os engenheiros não o fizeram penúltimo para ela subir mais ainda, ainda afirma que seu desejo era que este fosse o antepenúltimo andar.

Figura complicada que nos afigura, apesar de mulher descomplicada. Não ordena, exige. Na sua demanda pela manda.

Senta-se na sua secretária e pede a esta que vá verificar a bolsa. Que desconfortante a sensação de conforto, não traz desenvolvimento.

-Como Carla?

-Mais 0.7, doutora.

-Tendência?

-Estabilidade.

Em criança, hiperativa, em adulta, imperatriz, não aguenta estar parada. Não, isso seria demais para ela.

-Deseja alguma coisa? – fala a secretária falante.

-Não, obrigada. – não depende dela.

Por esta altura deve-se questionar: qual é o seu motor? A mesma pergunta ela coloca a si própria. Não tem marido nem filhos, independência significa solidão. Não tem sonhos, nem pretensões, isso é apenas uma ilusão. Não tem futuro, nem passado, é como um cão.

Curto raciocínio, pensar é estar doente dos olhos.

Efetua uma série de ações rotineiras, pois tudo o que fez até aqui não foi rotina pelo mero facto de o estar a narrar. Debruçarmo-nos sobre a vida alheia torna interessante o que não possui interesse algum.

Pois que, num momento mais à frente no seu dia, entra no gabinete um rapaz (nada clichê). No entanto, se espera a sua descrição, não a farei.

-Boa tarde. – saudou.

-Bom dia.

-Ainda não almoçou? - questiona

-Outras ocupações…

-Compreendo. Estou aqui para a entrevista de emprego.

-Costuma ser o empregador a tratar destes assuntos mas, desde ontem, encontra-se desempregado.

-Compreendo. – tinha sido instruído para esta resposta.

-Vamos começar…

-(Interrompendo) Pelo início, parece-me. – não tinha sido instruído para esta.

-(Ignorando) Um candidato aceitável para uma vaga disputada. O que joga a seu favor?

-Penso que capacidade de adaptação, motivação…

-Escusa de continuar. Muito obrigada, pode sair.

-(Incrédulo) Porquê? 

-(Encarando-o) Pergunta mais tola. Tal como as suas respostas.

-Não me deixou terminar!

-Termino por si: determinação, espírito competitivo e qualquer outro atributo vazio, ou cheio de estupidez. Eu com estupidez não trabalho.

-Embora que sejam as ideias estúpidas a dominar o mundo.

-Não neste ramo.

-E porque não? E porque não saltar de ramo?

Nesta altura gera-se uma contradição (primeira nesta prosa): é que quem não gosta de estabilidade, nem tem pretensões, o que faz quando chega à ponta do ramo? Demasiado pesado para ele, sujeita-o a partir. Mas o sujeito não quer partir para outro. O que faz sequer num ramo?

Era com este assunto que se debatia quando o rapaz lhe coloca exatamente essa pergunta:

-Porque não a árvore?

-Juventude…Não precisamos disso.

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