Anti-racismo marxista

Desde a morte de George Floyd e das suas repercussões no mundo que o racismo ganhou destaque no debate público português. Este foi abordado de três posições: anti-racismo burguês (progressista), anti-anti-racismo (reacionário) e abstenção (conservadora). Mais uma vez, no que toca a pautas identitárias, faltou um ponto de vista marxista revolucionário que pretendo neste texto expor:

A recente insurreição do movimento Black Lives Matter, por mais que o tentem encobrir, deveu-se à óbvia falta de resolução do problema da discriminação racial. Um problema que nos atormenta há demasiado tempo e que a Direita já não pode validar, pois isso seria admitir a incapacidade do sistema capitalista em eliminar fatores de desigualdade e preconceitos.

Devido a tal, assistimos a todo um aparato populista da rejuvenescida Direita reacionária portuguesa que nos distrai com o seu novo brinquedo: o anti-anti-racismo, com a frase de ordem “Portugal não é um país racista”, que, apesar de se tratar de uma proposição alheia ao debate inicial, é urgente para a Esquerda marxista desmontar.

Outra posição tomada pela Direita portuguesa, desta vez a conservadora, foi a pura e simples desvalorização do problema. Um fechar de olhos que, surpreendentemente, não lhes saiu tão caro pois que, afinal, um eleitorado que se diz defensor dos ideais liberais nunca foi mais do que uma massa hipócrita e passiva perante as atrocidades do seu tempo.

Mas o sistema capitalista não se limitou a produzir defensores diretos da sua opressão. Para balancear o debate e acalmar potenciais massas revolucionárias surge o identitarismo liberal, vindo de um mundo fantasioso onde problemas profundamente estruturais se resolvem com a aplicação de um politicamente correto em tudo o que é produção burguesa ou com a representação de minorias em espaços de poder. Medidas por vezes infantis que servem de matéria prima para a ridicularização de toda a Esquerda.

Assim, longe de serem antagónicos, o identitarismo burguês e o populismo de direita são de facto simbióticos pois que, ao invés de representarem a Esquerda e a Direita como afirmam, apenas representam o anti-racismo reacionário e o anti-identitarismo burguês. Os seus apoiantes, ignorando a sua real orientação ideológica, limitam-se a discutir casos ocasionais de possíveis motivações racistas, reduzindo todo um debate a questões individuais (exemplo da violência policial que o primeiro justifica com o preconceito dos agentes em vez dos considerar vítimas das deficiências institucionais e o segundo renega, considerando as instituições irrepreensíveis). Como resultado, afastam a população do debate político e mantêm assim este sistema, com os seus problemas inerentes.

Revistas as posições passivas perante o racismo, é mais que tempo de denunciar a opressão estrutural que o gera: a construção social desigualitária perpetuada pelo capitalismo. É óbvio que esta não se manifesta explicitamente na legislação ou na nossa consciência coletiva. Esta é intrínseca ao sistema socioeconómico atual que conserva trejeitos feudais quando permite a exploração para proveito pessoal de recursos humanos e materiais, ou seja, quando a satisfação das necessidades da sociedade é maioritariamente dependente de uma propriedade privada hereditária destinada a interesses individuais, como a manutenção desse privilégio. Uma moderna exploração do homem pelo homem onde o filho do explorador, pela sua exploração, é privilegiado e o filho do explorado, pela sua degradação, é marginalizado, sendo assim provocada uma gritante desigualdade de oportunidades. No entanto, este sistema ainda tem o desplante de assumir um discurso meritocrático e pró-mobilidade social e de acusar as tímidas medidas sociais-democratas de atenuação da desigualdade proveniente de fatores sociais (e não de fatores naturais anatómicos que evidentemente também determinam a competência produtiva do indivíduo) essas sim, de anti-meritocráticas.

Desta maneira, assim como são herdadas as relações de produção e os fatores sociais e históricos que as provocam, também é herdada da época colonial a exploração do preto pelo branco e os preconceitos que a rodeiam pois que, na hora de encontrar responsáveis pela aparente fraca contribuição para a sociedade da comunidade imigrante dos PALOP ou pela suposta alta criminalidade negra, previsivelmente a maioria da população, alienada pelo capital e, portanto, limitada no que toca à imaginação sociológica não olhe a fatores sociais ou à desigualdade de oportunidades permanente e então se agarre a razões mais palpáveis, tal como a melanina, ainda que inconscientemente, contribuindo ainda mais para essa desigualdade.

E é desta forma que o sistema português promove o racismo ao mesmo tempo que nos faz crer que o anti-racismo é uma causa caducada, é desta forma que a mesma educação que forma os futuros operários lhes ensina que somos “todos diferentes e todos iguais”, é desta forma que os portugueses justificam a opressão que sofrem. É por isso que eu me dirijo ao Portugal shakespeariano criado pelo Chega para lhes dar a resposta que tanto querem ouvir, resposta que devia ter sido dada pelos meus líderes políticos caso não estivessem tão atrapalhados com o fenómeno populista português, dizendo com todas as letras que este é sim um país racista, assim como todos os países deste mundo capitalista de justificações liberais.

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