Não fales

O mundo está em silêncio Ouve-o, está em silêncio Não mais As minhas palavras, não minhas mas por mim proferidas, Estas palavras soam como soam as pedras ao cair Soam ao som do contacto das pedras com o chão O seu som é o som das pedras Que caiem num chão natural Há palavras tais Que se parecem mais ao vento Mas não o som do vento O vento mesmo Passam por nós com uma fúria e paixão E ultrapassam-nos rápido, como vento que são Quero que ao falar contigo, O que fale não seja o som de pedras Nem um vento sonoro Quero falar-te... Quero falar-te sobretudo, Mas o que realmente te quero falar? E o mundo está em silêncio Que comparações posso eu fazer Para tornar palavras, coisas ínfimas Em revoluções e poesias Coisas que o amanhã conquistará E o amanhã não conquista coisas ínfimas Palavras que não passam de palavras Que no máximo são lidas Que no máximo são proferidas No máximo são compreendidas No máximo servem de grito de guerra de um proletário armado contra quem o oprime Que é tanta pessoa Uma tão vasta minoria tirana De burgueses cegos pelo que criaram Palavras Tudo paleio Continuas explorado E o mundo está em silêncio Em silêncio como o deixaste Quando não cuidaste dos contos Que os próximos te tinham para contar Sobre lendas de migrantes que nunca, Mas nunca irão voltar À terra, aquela terra que não os viu crescer mas sobre a qual cresceram E cresceram, até se tornarem homens migrantes Fugitivos ingratos da terra que lhes sustentou o crescimento A terra que amaram e que os expulsou Como terra humana que é Limitada por fronteiras humanas Cultivada por mãos de agricultores que se dizem humanos Não o são Homens sentem Homens sentem a partida dos filhos Filhos que eles sim viram crescer Tanto viram que os viram partir E nada fizeram para os impedir E quietos, na cadeira em que um dia se sentaram Cansados de viver o que viveram Uma vida de palavras Uma vida que de vida só tem nome Nome de vida, uma palavra Porque palavras a compõem, nada mais Tantas palavras Tantas palavras E o mundo continua em silêncio

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