Querida filha

Querida filha, Cada vez me convenço mais que a vida é a poesia da poesia E que a própria poesia não serve o significado Para significado serve a vida, mas não o cumpre Podes pensar a poesia como uma decoração Exato, um segmento desconectado do seguimento que lhe possas dar Não o dês O pior que podes fazer na vida é avançá-la Como se fosse um caminho ou algo parecido Como esses vagabundos gostam de vagabundear Não é: vida é vida, apenas e somente presente E é tanto tua quanto tudo o resto não é teu Não é teu esse corpo, não são tuas essas palavras, não é tua a tua fama Mas é tua a vida Não a adores, não é um Deus Não a desprezes, não perdoa ateus Cinge-te a não pensar nela E estarás Tão estarás quanto eu não o estou Engraçado como do texto as palavras não custam a sair Contrasta em muito com os dedos, com a garganta Mas isso são contas de outro rosário E estes rosários são também contas de outros rosários Porque, lembras-te, tudo o resto não nos pertence Quem me dera que pertencesse e que eu pertencesse Mas não possuo nem pertenço Não há parte nem todo Só tu, filha, só tu Aproveita

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